Relembro, neste dia, outros dias em que se comemorava o meu aniversário, e não posso deixar de sentir outro sabor que hoje não existe… por isso recordo este poema de Álvaro de Campos… faz muito sentido dentro das minhas recordações.
No entanto, hoje o dia não poderia ter começado de forma mais ternurenta:
“Parabéns, mamã, hoje está um lindo dia, és linda e bonita!”
Amo-te, meu amor!
Agora o meu aniversário comemora a tua presença na minha vida! Os meus dias festejo-os para ti!
E tu tens o poder de me “estanfomar” o dia com um sorriso, com uma palavra simples e doce…
o que o tempo leva, o tempo traz… tu és o sentido da minha vida!
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho… )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
(…)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos …
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! …
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…
Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa
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