Aqui todas as árvores se parecem contigo

Aqui todas as árvores se parecem contigo

Aqui todas as árvores se parecem contigo.

Já não as posso ver!E ouço as canções mais tristes e as melodias mais dolorosas para me libertar de todas as tuas profecias raquíticas.

Os braços multiplicam-se e fingem-se troncos apenas, que nada podem apertar.

E os olhos cerram-se por me ter visto partir e eu choro de antemão a minha partida que virá, próxima.

Sei que tudo se cumprirá, mas em breve todos os meus dias serão poucos… lamento as tuas penas e as minhas, tão profundamente que mais não poderia ser.

 

Um tubarão na floresta

Um tubarão na floresta

Caminhava ao fim da manhã pelo bosque à beira do lago, seguindo as aves que deambulavam com urgência sobre as águas convertidas em gelo, quando o ouvi.

Há pormenores que tornam alguns dias inusitados…

O piano era forte, intenso, claro, translúcido como o lago feito gelo.

Num impulso que me parecia quase imprestável o rosto procurou o som.

Ao fundo, entre as árvores, um enorme piano negro entrecortado pelos longos troncos que se erguiam em êxtase, numa contemplação única.

Sentado, ele tocava gravemente em desacordo com todas as leis, em desagravo de todos os destinos desinfelizes. Negra como o piano era a música que lhe saia dos dedos. Um adágio plangente como nunca ouvira em toda a vida! Parecia um revolucionário amotinado, embriagado por um cansaço ancestral ali no meio do arvoredo.

E todo aquele cenário surreal me surgia como um pórtico mágico. Depus as minhas armas, e segui.

Amarga é a espera e o medo uma corrente tumultuosa, uma prisão intermitente entre o desejo, a incerteza e a placidez de uma aurora quase dia…
Estou presa nos quases da minha vida, folhas velhas e gastas, partituras riscadas e mudas, sem raízes nem céu nem nada…

No futuro, todos os quases se tocam e iremos entender a razão pela qual os nossos caminhos se encontraram e se perderam

“esta mania contemporânea por sopas e descanso”

“esta mania contemporânea por sopas e descanso”

“[...] O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.   Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.

Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam “praticamente” apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões , farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas e cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas, já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor,a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.
Por onde que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.

O amor não se percebe. Não é para perceber. o amor é um estado de quem se sente. o amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade.

É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.Não é para perceber. é sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder.Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também”

Miguel Esteves Cardoso

Receber este mimo é uma imensa satisfação, já há muito tempo que não era brindada com nenhum e confesso que nunca tratei muito bem aqueles que recebi… Mas agora soube-me muito bem, Luíza !
Recebi daqui: http://saberdesi.blogspot.com/ (blogue Saberdesi)

Devo:
1 – Exibir a imagem do prémio;
2 – Postar o link do blog que premiou (já está lá em cima);
3 – Publicar as regras;
4 – Indicar blogs para receberem.
5 – Avisar os indicados.

Esta é a prova de que eu sempre estive certa

Esta é a prova de que eu sempre estive certa

Num post que escrevi há já algum tempo, com o título “(auto)retrato” [http://saiadebalao.wordpress.com/2008/10/31/autoretrato/], disse a certa altura que:

-já pensei que é possível que eu seja a única pessoa que existe e que todas as outras são uma projecção da minha mente;

Ora, aqui deixo a prova de que afinal eu estava certa!

Nem tenho palavras, nem sei se já tenho capacidade suficiente para entender as implicações desta teoria! É maravilhoso o poder da mente humana:

When there is nothing left to burn

When there is nothing left to burn
When there is nothing left to burn,
You have to set yourself on fire.
God that was strange to see you again,
Introduced by a friend of a friend
Smiled and said ‘yes I think we’ve met before’
In that instant it started to pour,
Captured a taxi despite all the rain
We drove in silence across pont champlain
And all of the time you thought I was sad
I was trying to remember your name…

This scar is a fleck on my porcelain skin
Tried to reach deep but you couldn’t get in
Now you’re outside me
You see all the beauty
Repent all your sin
It’s nothing but time and a face that you lose
I chose to feel it and you couldn’t chose
I’ll write you a postcard
I’ll send you the news
From a house down the road from real love…
Live through this, and you won’t look back…
Live through this, and you won’t look back…
Live through this, and you won’t look back…
There’s one thing I want to say, so I’ll be brave
You were what I wanted
I gave what I gave
I’m not sorry I met you
I’m not sorry it’s over
I’m not sorry there’s nothing to say
I’m not sorry there’s nothing to save
Stars

Khrónos, a propósito da deusa Gaia…

Khrónos, a propósito da deusa Gaia…

Este foi um trabalho que fiz, em Maio de 2009, no âmbito de uma formação sobre mitologia aplicada ao ensino do Português.

Aquarianas invulgares ou Indiana Jones disfarçadas

Aquarianas invulgares ou Indiana Jones disfarçadas

DIZ-SE…
Não presta atenção e, no entanto, repara em tudo. Contraditória, nunca se afasta da lealdade, de ideais humanitários, e da sua essencialmente boa natureza.
Poderá ser pobre de recursos materiais, mas o homem dos seus sonhos terá de ser rico em talento, ideias, e acções.

Nunca duvidará de si nem lhe pedirá para comprometer aquilo em que acredita. Ela é justa no amor, contrapondo os seus dotes intelectuais e a sua boa estirpe às coisas em que ela se pode fiar em si.
Se ela estiver a caminho duma exótica aventura, você poderá nada saber dela até ao seu regresso.
Ela raramente sofre de saudades de casa ou de solidão.
Se é que você ainda não se apercebeu, posso dizer-lhe que esta é a mulher invulgar.Não é preciso dizer-lhe que ela não procura alguém convencional, nem que ela não embarcará numa relação que não seja pontuada pela excitação, por uma certa “química”, ou por uma boa e sólida amizade.
Por todos estes motivos, ela é atreita a súbitos finais ou inícios nos seus relacionamentos com o sexo oposto. Por isso, enquanto ela não pretender ser pertença de ninguém, o melhor que tem a fazer é dedicar-lhe muita atenção. Se você se tornar desprendido ou preocupado (assim como ela é), possivelmente ela decidirá que você não vale o esforço.

Lembre-se, ela é contraditória. Mas também é esperta, divertida, inteligente e progressista. O génio de H. G. Wells está-lhe no sangue. Maçadora é que ela nunca será. Atraída por tudo o que é científico, pela electrónica e pelas artes e literatura, esta nativa é capaz de talhar uma carreira para si própria.

Se esquecermos os episódios em que o seu espírito fica a pairar e ignorarmos as suas tendências para se separar do corpo, ela até é firme na sua atitude perante a vida, e provavelmente terá tido uma infância sólida e afectuosa.

Determinada em assuntos relativos à sua vida doméstica, ao seu casamento e à sua carreira, ela é leal e capaz de aguentar muito para fazer com que as coisas resultem.
O resto da vida dela é mais errante, os filhos são hiper-activos, ela engana-se em questões de dinheiro, a saúde e a vitalidade são precárias, e o seu companheiro exige-lhe atenção.

Tratando-se de um ser algo excêntrico, ela revela-se humana, generosa, e tem esperanças de que a humanidade melhore. Para ela, uma visita do E.T. poderá não ser invulgar.

Aquarius – Perfil astrológico

Aquarius – Perfil astrológico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

tem interesse e preocupação genuínos pelos seres humanos, e tem uma forte necessidade de dar algum tipo de contribuição para tornar o mundo um lugar melhor. No entanto, relacionar-se com um único indivíduo – especialmente quando isso envolve emoções fortes – é um pouco mais complicado.
Aquarianas se preocupam com ideais, e os ideais de amor e de igualdade estão entre os vários que são constantemente reformulados em sua mente inovadora e avançada. Aquário também trata amplamente de ciência, conhecimento, invenções e descobertas. As visões humanas mais nobres surgem deste último signo de Ar, mas seus ideais são muitas vezes mais avançados que aqueles de seu tempo, e colidem diretamente com a realidade da natureza humana.

Sem um ideal, nenhum progresso pode ser alcançado. No entanto, a base de um ideal exige tempo, flexibilidade e sensibilidade às limitações do coração humano – você não é muito dotada disso, apesar de sua inteligência aguçada. Geralmente você é impaciente, e quer ver o ideal tornar-se realidade agora. Apesar de ser uma grande amante da verdade, para falar verdade, você não é muito flexível, e frequentemente demonstra uma incrível falta de compreensão e paciência com a profundidade fluida do coração humano – do seu.

Às vezes aquela fixação corajosa nos ideais pode-se tornar uma teimosia ou um fanatismo científico, político ou espiritual. A correção política só pode ter sido inventada por uma aquariana, porque é o paradigma das nobres intenções desse signo, aliada à completa intolerância para com as necessidades e diferenças emocionais de cada indivíduo.Você é a verdadeira democrata do Zodíaco. Uma de suas qualidades mais atraentes é o senso de justiça e integridade. Você tem uma consciência muito refinada e um horror ao que chama de “egoísmo”. Isso é nobre, mas nem sempre psicologicamente saudável. Independente de gostar ou não de certas coisas, sua dedicação a suas crenças será sempre irrefutável.

As sutilezas dos relacionamentos podem representar um grande problema para você, porque não é possível resolver os conflitos emocionais apenas com a lógica e com grandes ideais. Aquarianas muitas vezes se envergonham de suas emoções, e acham que elas não se encaixam nelas mesmas, nem nos outros. Você é orgulhosa e tem autocontrole, e as demonstrações de emoção são vistas como uma fraqueza. Isso não significa que você não tenha sentimentos: você tem uma enorme capacidade de devoção e lealdade. Porém, o autocontrole e o idealismo geralmente ganham no final, e isso pode significar uma repressão violenta ou uma dissociação de emoções desagradáveis como ciúme, agressividade, apego e raiva.

Aquarianas geralmente têm um dom para a análise do temperamento humano, e são proeminentes no campo psicológico. Tudo o que motiva o ser humano está claro e óbvio à sua mente penetrante e concisa. Freqüentemente, vocês têm uma capacidade maravilhosa de compreender, e uma compaixão desapegada pelos comportamentos mais horripilantes. Por isso você é capaz de conversar com todo o tipo de pessoas de todas as vertentes humanas, e encontrar algo interessante e valioso em todas elas.

O problema é que quanto mais próximo é o relacionamento, mas difícil será para você expressar sentimentos pessoais. Você sabe o que acha que sente, o que acha que deveria sentir, o que você pensa que deve ou não deve sentir, e o que acha que os outros pensam do que você acha que sente… Bem, isso tudo pode ser bem negativo na esfera das relações íntimas. Você é capaz de sacrificar sua vida por um ente amado, mas pode ser que se esqueça de dizer “eu te amo”. A necessidade de elogios, demonstrações sentimentais e de afeto, e segurança emocional e sexual de um parceiro poderá iludir completamente seu intelecto brilhante, mas freqüentemente cego.

Alguns signos zodiacais têm um dom para relacionamentos pessoais, e outros não. A aquariana tem mais dificuldade que qualquer outro signo, porque poucas vezes aprecia verdadeiramente o lado pessoal – o seu. Mas isso é fácil de remediar: amplie aquele amor maravilhoso e genuíno pela humanidade, incluindo nele seu próprio ser humano.

in www.astro.com

Esta história começa assim:

Esta história começa assim:

Era uma vez uma sensação, era uma vez um espaço sem paredes, era uma vez um sentimento, era uma vez a espera, era uma vez a realidade quase a acontecer.
Era uma vez uma verdade que não aconteceu.
http://saiadebalao.wordpress.com/ana-ou-aquela-que-era-eu/

sobre o trabalho…

sobre o trabalho…

O PÁSSARO INCUBADO

O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.

É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.

Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.

Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.

O pássaro preso é um pássaro
recortado de seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.

[Cacaso. O Lado de Dentro]

Metamorfoses em Ruben A. – uma monografia

Metamorfoses em Ruben A. – uma monografia

  “Ficcional foi o meu universo de menina: Ilhéus, fazenda de cacau, coronéis e lobisomens literalmente, santos e assombrações, todos os medos, milagres, deslumbramentos e desnudamentos. Ficcional é o mundo do poder, a torre de marfim do privilégio, o isolamento e a cidade lá fora, imaginária. Autobiográfico é o trânsito por tudo isso, a aventura de viver histórias reais povoadas de pessoas ordinárias e fantásticas. O traçado da minha vida tem sido inesperado e o meu olhar, criado safo e solto, me leva pela mão, ávido e indomado, enxerido.”

Hilda Lucas, em entrevista. 
 

A escrita literária de Ruben A. constitui um testemunho singular e original de uma época, de um país, de uma vida dilatada e plena de sensibilidade que se revela na enorme capacidade que o autor possuía para retratar o ser humano. Ora, este “sonho de imaginação”, invulgar e fascinante, que é a escrita rubeniana, é a razão primeira pela qual nos propomos aprofundar o conhecimento acerca deste autor. Sendo que este é um trabalho desenvolvido no âmbito de um seminário subordinado ao tema “A escrita do eu”, a selecção da base de trabalho implicou a exploração de narrativas que enfatizassem a presença de um “eu”. Assim, correspondendo a esse requisito, é na perspectiva deste género de escrita que as duas obras escolhidas, «História Bilingue»[1] e «O outro que era eu»[2], serão confrontadas e analisadas. Nessa óptica, entendemos ser possível estabelecer, entre ambas as narrativas, determinadas conexões, e paralelos curiosos, que constituem o interesse das grandes linhas deste trabalho.

Monografia “Metamorfoses em Ruben A.” (para um seminário sobre “A escrita do eu”)

As metamorfoses em Ruben A. verificam-se no acto de recriação do “eu”, quer na autobiografia, quer na ficção, existindo um fio condutor que nos permite assumir que, embora o sujeito enunciador mostre uma propensão para o desdobramento, o autor enquanto narrador de uma história, real ou ficcionada, nunca pode sair de si mesmo, já que ele só pode escrever aquilo que é, até mesmo quando leva aos limites as suas faculdades imaginativas ele está a revelar-se na sua natureza excêntrica. Assim, se as personagens se comportam de modos diferentes é porque ele não é um só, acabando por se metamorfosear textualmente numa ou noutra personagem. É provável que, em determinadas situações, o autor empírico actuasse como o “Outro” de «O outro que era eu», ou então, se realmente tivesse reprovado e abandonado a escola, talvez fosse tal qual Ruben B. de «História bilingue».


[1] In Ruben A., Páginas III, Assírio & Alvim, ed. 496, Agosto 1998, pp.39-77; 1ª edição de 1956.

[2] Ruben A., O outro que era eu, Assírio & Alvim, ed. 311, Junho 1991; 1ª edição de 1966.

Hoje é o meu aniversário…

Hoje é o meu aniversário…

 

Relembro, neste dia, outros dias em que se comemorava o meu aniversário, e não posso deixar de sentir outro sabor que hoje não existe… por isso recordo este poema de Álvaro de Campos… faz muito sentido dentro das minhas recordações.
No entanto, hoje o dia não poderia ter começado de forma mais ternurenta:
“Parabéns, mamã, hoje está um lindo dia, és linda e bonita!”
:) Amo-te, meu amor!

Agora o meu aniversário comemora a tua presença na minha vida! Os meus dias festejo-os para ti!
E tu tens o poder de me “estanfomar” o dia com um sorriso, com uma palavra simples e doce…
o que o tempo leva, o tempo traz… tu és o sentido da minha vida!

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho… )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

(…)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos …
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! …

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa